MYME aposta em plataforma gratuita que coloca histórico médico nas mãos do paciente de forma unificada
A fragmentação de informações médicas, ainda distribuídas entre hospitais, clínicas e pouco acessíveis ao próprio paciente, é um dos entraves para a continuidade do cuidado em saúde. Para enfrentar esse desafio, a startup de saúde (healthtech) brasileira MYME criou uma plataforma gratuita para centralizar o histórico médico, garantindo ao paciente a soberania sobre seus dados e a gestão de quem pode acessá-los. A ferramenta reúne exames, vacinas, prescrições e registros clínicos em uma linha do tempo digital, com possibilidade de compartilhamento por link com médicos e instituições de saúde. A proposta é reduzir a dispersão de informações e apoiar decisões clínicas com base em um histórico mais organizado e completo. Após um ano de testes, agora a plataforma está aberta ao público.
A dificuldade de acesso ao próprio histórico não é exclusiva do Brasil. Embora 95% das clínicas de atenção primária usem prontuários eletrônicos, apenas metade compartilha esses registros com outras instituições de saúde, segundo pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com mais de 107 mil pacientes em 19 países. “Basta mudar de convênio, clínica ou cidade para correr o risco de perder a continuidade do cuidado, e isso gera repetição de exames e atraso em diagnósticos”, comenta Lucas Santiago, cofundador da MYME. “Esse é o problema que a MYME resolve. Colocamos os dados nas mãos do paciente”, afirma.
A startup foi fundada por Santiago, mineiro radicado em São Paulo, empreendedor com experiência em empresas de dados, e o engenheiro de software, Gabriel Barros, paulista, que divide sua vida entre o Vale do Silício, na Califórnia (EUA) e o Brasil. Dedicados em tempo integral à healthtech, antes de criarem a sociedade, Lucas acabara de vender sua startup de análise de dados que já faturava R$ 18 milhões por ano e Gabriel construíra uma carreira de 15 anos no Yahoo Internacional, chegando a liderar um projeto de isolamento de dados sensíveis em parceria com o Google e a Microsoft.
Hoje, a MYME é estruturada como uma Public Benefit Corporation (PBC), ou Sociedade de Benefício Público, organização com fins lucrativos que tem também um propósito social. Segundo a empresa, o modelo de negócio não envolve a comercialização de dados pessoais ou informações de saúde dos usuários. A monetização, portanto, se concentra em duas frentes: a otimização de fluxos de trabalho de instituições que já operam com dados de pacientes e integração de dados de saúde onde exista benefício para o paciente e uma melhora do cuidado a partir de uma visão completa do histórico de saúde.
Histórico sob controle do paciente
A ideia da MYME nasceu da experiência de Lucas Santiago durante uma investigação de diagnóstico médico, que envolveu uma série de consultas e exames que se transformaram em um problema logístico, terminando em preocupação. “Eu andava com tantos papéis soltos para cima e para baixo, que não seria difícil um deles cair e se perder nas ruas, sem que eu nunca mais tivesse acesso”, conta, descrevendo a angústia de conviver com laudos espalhados entre clínicas, casa, e-mails e pastas.
Essa constatação, da dispersão do histórico pessoal de saúde, foi a centelha para a criação da healthtech. Gabriel, que também já havia sentido falta de um histórico médico quando se mudou do Brasil para os EUA, também apostou na ideia e trouxe para a startup a segurança que o mercado, com diversos casos de vazamento de dados, precisava. “Nossos códigos são proprietários, a segurança dos dados é nossa prioridade. Estamos anos-luz à frente no segmento de histórico médico”, afirma o engenheiro.
Como a MYME funciona
Ao criar uma conta na MYME, o usuário já pode fazer upload de PDFs, fotos e preencher campos na linha do tempo. Existem categorias sugeridas – Sintomas, Exames, Visita Médica, Medicação, Vacina e “Outros” –, mas o usuário pode organizar os dados à sua maneira criando tags e categorias próprias (ex.: “controle de glicemia”, “controle de pressão arterial”, “ciclo menstrual”). “Quando o paciente precisa compartilhar qualquer informação ou até categoria, basta selecioná-la, gerar um link e enviar ao profissional responsável pelo atendimento”, explica o engenheiro.
“A plataforma também é pensada para o cuidado com o outro, lembrando que vivemos em comunidade e dependemos uns dos outros”, destaca Lucas. Hoje, a MYME permite criar perfis de dependentes, o que significa que um adulto responsável poderá criar e alimentar o perfil de um idoso, um doente ou uma criança. A plataforma permite também compartilhar esse perfil com outras pessoas, facilitando a gestão da saúde. Uma funcionalidade bastante útil para familiares ou cuidadores que se revezam para cuidar de uma pessoa: cada um registra as ocorrências do seu turno e assim todos se mantêm atualizados. Para crianças em idade escolar, essa funcionalidade garante que a escola tenha acesso a registros importantes da saúde dos seus alunos.
A discussão sobre dados de saúde também passa por segurança, um dos principais pontos de atenção do setor. A startup adota uma arquitetura voltada à proteção de informações sensíveis, tema que ganhou relevância diante de episódios recentes de vazamento de dados na área de saúde. Gabriel, cofundador da startup e engenheiro de software com experiência em projetos internacionais voltados à proteção de dados sensíveis. “A construção da infraestrutura parte do princípio de que dados de saúde exigem um nível máximo de proteção e controle pelo usuário”, diz.
Complementar ao Meu SUS Digital
A MYME não disputa espaço com o Meu SUS Digital, plataforma do Ministério da Saúde que funciona como prontuário eletrônico do Serviço Único de Saúde (SUS). “O Meu SUS traz informações da rede pública e agora também permite o agendamento de consultas [inicialmente para 500 municípios brasileiros]. A MYME agrega o que o paciente tem em papéis, imagens e outros arquivos guardados consigo, além de dados do cotidiano que o SUS não registra”, diferencia Gabriel.
A proposta é, portanto, complementar: o usuário pode integrar registros antigos, como o cartão de vacinação em papel, e dados que o sistema público usualmente não captura, como diário de sintomas, diário de medicamentos usados e fotos de evolução de algum quadro clínico.
O próximo salto da MYME será a leitura automática de exames. “A ideia é extrair os valores dos laudos e montar tabelas comparativas automaticamente. Ou seja, em vez de abrir exame por exame, o médico e o paciente veem uma tabela com tipo de exame, datas e os resultados ao longo do tempo”, finaliza Gabriel.
Fiquei com algumas dúvidas e acabei questionando a Myme, confira como foi
Como a MYME garante conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais no tratamento de dados sensíveis de saúde?
Diferente de modelos de negócio que monetizam informações, a MYME fundamenta sua operação no consentimento explícito. Na prática, o usuário é o gestor de seus próprios dados: ele decide o que inserir, quem pode visualizar e por quanto tempo.
- Zero Comercialização: A MYME não vende dados pessoais ou de saúde.
- Finalidade Direta: Os dados existem na plataforma apenas para servir ao cuidado do paciente.
Infraestrutura de Nível Europeu
Para garantir essa segurança, a plataforma utiliza padrões robustos de criptografia em repouso (encryption at rest). Isso significa que nem mesmo os provedores de infraestrutura conseguem acessar o conteúdo. Além disso, os dados são hospedados na Alemanha, região que possui uma das legislações de proteção de dados mais rigorosas do mundo (GDPR).
Como a plataforma trata dados de menores de idade, especialmente nos perfis de dependentes?
O tratamento de dados de crianças e adolescentes exige cuidado redobrado. Na MYME, a lógica segue a responsabilidade legal:
- Tutela Digital: Os responsáveis legais são os únicos autorizados a inserir, atualizar e gerenciar o compartilhamento das informações dos menores.
- Histórico Centralizado: A ferramenta resolve a fragmentação de registros médicos, permitindo que o histórico do dependente esteja sempre à mão do responsável, eliminando anotações informais e inseguras.
O usuário pode revogar o acesso a dados já compartilhados via link? Como isso é operacionalizado tecnicamente?
Uma das maiores dores de cabeça na saúde é o “vazamento” de informações após uma consulta. A MYME resolve isso com acessos efêmeros:
- Janela de 2 Horas: Links compartilhados com profissionais de saúde expiram automaticamente após 120 minutos. Após esse prazo, o acesso é deletado do banco de dados.
- Gestão de Cuidadores: Para casos de cuidados contínuos (como idosos ou pacientes crônicos), o administrador do perfil pode conceder permissões graduais, podendo pausar (ex: durante férias de um cuidador) ou excluir o acesso definitivamente a qualquer momento.
Os dados podem ser utilizados para treinamento de algoritmos ou IA? Se sim, sob quais salvaguardas legais?
Questionada sobre o uso de dados para treinamento de modelos de IA, a posição da MYME é categórica: não utilizamos dados de usuários para treinamento.
A estratégia para o futuro envolve parcerias onde os algoritmos de saúde rodem dentro dos servidores da MYME. Dessa forma, a tecnologia gera valor para o diagnóstico do paciente sem que o dado precise sair do seu controle ou ser exportado para terceiros.
Como a empresa assegura transparência sobre o ciclo de vida dos dados (coleta, uso, armazenamento e exclusão)?
Abaixo, resumimos como a MYME lida com o armazenamento e a expansão para o ecossistema hospitalar:
| Tópico | Política da MYME |
| Tempo de Armazenamento | Indeterminado (como uma nuvem pessoal). O dado pertence ao usuário enquanto ele mantiver a conta. |
| Exclusão de Dados | Imediata e definitiva sob solicitação, sem possibilidade de recuperação. |
| Hospitais Privados | Integrações planejadas para oferecer aos médicos um contexto clínico mais rico para decisões. |
| Operadoras de Saúde | Sob análise rigorosa. No momento, não há compartilhamento, visando proteger o usuário de qualquer risco de uso indevido. |
