Leitores faciais viram febre em condomínios e aposentam dupla fotinha e RG para entrar
Até na novela das 9 eles aparecem e, ainda que o personagem tenha ficado irritado com o equipamento, biometria está mudando o ambiente de identificação e pagamentos no Brasil; leitores de palma de mão serão a próxima geração e prometem transformar gesto simples em chave para pagar compras e acelerar entrada em locais de grande afluxo
Uma febre de leitores de rosto invadiu os bairros de médio e alto padrão da cidade de São Paulo. Eles agora são dominantes em portarias, substituindo os antigos “porteiros eletrônicos” ou comunicadores baseados em interfone. A febre alcança os prédios corporativos, que substituíram a mera fotinha e o registro manual de RG ou CPF pela identificação facial com coleta (trabalhosa) de informações de cadastro em tótens próprios, aposentando o gesto quase automático de sacar o documento de identidade para mostrá-lo na portaria.
Sinal dos tempos, as mais recentes propagandas do Casa Paulista, o programa de habitação de baixa renda do governo de São Paulo, anunciam que os novos conjuntos habitacionais já virão com leitor facial instalado.
Segundo estimativa divulgada recentemente pela Associação Brasileira de Síndicos de Condomínio (Abrascond), mais de um milhão de condomínios já fazem reconhecimento facial para entrada no prédio.
O salto tecnológico, porém, não se faz sem certa fricção, como registrou a recém-terminada novela Três Graças: o finado Célio, o sogro aproveitador assassinado pela vilã Arminda, certa vez apareceu em cena na qual brigava com o leitor de face da catraca da “Fundação Ferette”. Ele não acerta a altura do rosto no leitor e reclama da máquina: “Esse aparelho não vai com a minha cara”.
O personagem, que dá voz a tantos outros deslocados tecnológicos, acharia mais fácil só estender a mão sobre um PalmAI para passar na catraca. O PalmAI é um leitor baseado em IA que transforma a palma da mão numa carteira digital. Ele está sendo lançado no Brasil pela Tencent Cloud, braço de serviços em nuvem e biometria da gigante de tecnologia chinesa Tencent, em parceria com a brasileira Treeal, de meios de pagamentos, e permite pagar apenas com um gesto de mão o metrô, um café na padaria, uma compra no shopping ou entrar num show.
O PalmAI lê instantaneamente padrões visuais visíveis (cor, textura e linhas e forma da mão) e padrões vasculares invisíveis sob a pele, que são combinados para criar um indicador único e privado por natureza de cada pessoa. Com 50 milhões de usuários ativos no mundo, o PalmAI processa mais de 2 bilhões de transações por ano, com taxa de falsa aceitação inferior a 0,0000001% (1 em 1 bilhão) e taxa de falsa rejeição de 0,01%, com precisão de nível financeiro, o que faz dele um dos sistemas biométricos mais precisos do mundo.
Os primeiros leitores vão ser instalados até o fim de junho e já estão sendo fabricados no Brasil pela Positivo, mas pelo menos um segundo player global e um nacional estão lançando leitores próprios no país.
A Treeal vai armazenar e proteger os dados de cadastro de usuários do PalmAI, atuando como uma autorizadora geral do serviço no país. As operações com o leitor de palma de mão vão se comunicar com a Treeal para validação dos dados. Isso significa que um único cadastro pode ser usado em lojas e serviços diferentes: a pessoa se registra uma vez e é reconhecida de forma imediata em qualquer outro PalmAI, sem precisar refazer tudo.
“É como ter uma identidade digital que funciona onde o ecossistema está conectado — o PalmAI transforma a palma da mão numa carteira digital”, diz João Santos, CEO da Treeal. “Ao mesmo tempo, cada operação alimenta o cadastro do usuário na loja ou serviço, sem erros, atualizando o histórico de compras ou direcionando promoções”, diz Santos.
Diferentemente da biometria facial, nenhuma imagem de palma da mão é armazenada e os dados biométricos são tokenizados e criptografados.
Adeus fotinhas. Palma da mão funciona como carteira digital para pagamento e permite passar por catracas sem fricção e com privacidade
