Mundo Motorizado

 Ford em Le Mans: a história real da primeira vitória, 60 anos depois

A Ford tem uma história marcante nas 24 Horas de Le Mans, que começou com a espetacular vitória de 1966, varrendo os três primeiros lugares no pódio. No 60º aniversário desse marco, a empresa abriu seus arquivos e revela detalhes do que realmente aconteceu nos bastidores daquela jornada.

Para entender a importância dessa conquista é preciso lembrar das dificuldades que a antecederam. Em 1964 e 1965, a Ford não conseguiu terminar a corrida com nenhum carro em Le Mans e era motivo de piada nos círculos do automobilismo.


Um dos documentos inéditos revelados agora é o orçamento do programa. A verba original da Ford para Le Mans em 1966 era de US$1,8 milhão. O documento detalha claramente o risco para a reputação corporativa da marca se o programa não tivesse sucesso. Esse financiamento cobria tudo: carros, equipes, logística e operações de corrida. Ajustado pela inflação, equivaleria hoje a cerca de US$18 milhões.


“Mesmo para os padrões modernos do automobilismo, é um valor enxuto. Esse número na planilha original traz toda a história para a realidade. Como em qualquer projeto audacioso, nós estouramos o orçamento e houve um memorando pedindo por recursos adicionais para mais pilotos, carros, motores e chassis. O total subiu para US$3,5 milhões e graças a Deus foi aprovado”, conta Ted Ryan, gerente do patrimônio histórico e arquivo da Ford, que coordenou a pesquisa.


Só um bolo

Numa época em que não havia videochamadas, as entrevistas eram feitas via telex. Um documento de 1966, com várias páginas, mostra as perguntas enviadas a Henry Ford II e suas respostas, também transmitidas por telex.


“Nós temos o telex original e é possível ver o ritmo do raciocínio dele – direto e imediato. As respostas foram publicadas pela revista Sports Illustrated na mesma semana das 24 Horas de Le Mans. A história acontecendo em tempo real”, diz Ryan.


A comemoração da vitória também está registrada nos arquivos, incluindo o convite original para a festa no La Chanticleer, em Nova York, um restaurante lendário do automobilismo na época. Porém, mais revelador é o que veio depois dele – a conta do bar, incluindo vinho, champanhe, coquetéis e apenas um bolo.


“Esse detalhe é importante e mostra um quadro que nenhum comunicado de imprensa conseguiria: pessoas cansadas, aliviadas, finalmente se permitindo aproveitar o momento. Nós temos até a conta dos charutos, com as quantidades e custos exatos. É engraçado ver isso agora, mas também revelador. Em 1966, essa vitória ainda não era uma lenda. Era apenas um grupo de pessoas que tinha conquistado algo gigantesco”, completa Ryan.


Isqueiro de ouro

Um dos documentos mais significativos é a lista completa de todos os envolvidos no programa da Ford em Le Mans, incluindo engenheiros, designers, construtores e mecânicos. Cada um recebeu um par de abotoaduras feitas especialmente para a ocasião. “Nós temos a lista de destinatários. É um lembrete de que, embora nomes como Carroll Shelby sejam bem conhecidos, a vitória pertenceu a uma equipe muito maior, que incluía a Holman/Moody, a Alan Mann Racing e uma ampla gama de engenheiros da Ford.”


O comunicado de imprensa original emitido após a vitória da Ford, também preservado, é breve e objetivo. Mas um objeto captura o espírito da época melhor do que qualquer outro: um isqueiro de ouro maciço dado a Henry Ford II por Lee Iacocca. Ele traz um logotipo do Mustang em ouro maciço e uma inscrição gravada: “À saúde, à felicidade e 30% de retorno.” Essa única linha diz mais sobre a Ford na década de 1960 do que qualquer apresentação de estratégia corporativa.


“As pessoas perguntam por que esses documentos não foram compartilhados antes. A resposta é simples: a Ford não mostrava os bastidores do seu trabalho. Rascunhos e orçamentos eram confidenciais. Essa cultura só mudou nos últimos anos”, explica Ryan. “Esses objetos são fragmentos de histórias que, futuramente, precisarão ser resgatadas de outra forma. Pois daqui a 20 ou 30 anos não haverá contas de bar ou telexes – apenas e-mails excluídos e links expirados.”

Rafael

Rafael de Souza Mota é especialista em tecnologia, mobilidade e inovação, criador do Inteligência Móvel. Atua como gerente de projetos e produz reviews, análises e conteúdos sobre smartphones, gadgets, automóveis e lifestyle digital.