Ex-motoristas criam app de transporte
Cansados das altas comissões cobradas por aplicativos de transporte, dois ex-motoristas decidiram criar, em 2019, uma alternativa própria. Surgiu o Rota77, que adota um modelo de mensalidade fixa: o motorista paga um valor mensal e fica com o restante das corridas, ao contrário de plataformas como Uber e 99, que cobram uma porcentagem sobre cada viagem. Hoje, o aplicativo está presente em mais de 130 cidades, reúne cerca de 9.700 motoristas e realiza mais de 1,5 milhão de corridas por mês.
O valor da assinatura varia de acordo com o porte da cidade, indo de R$ 105 em mercados menores até R$ 460 em operações mais maduras. “Se o motorista faz 10 ou 500 corridas, paga o mesmo valor. O que muda é o quanto ele aproveita”, explica Oséias Santana, cofundador da plataforma. Para ele, o modelo oferece maior previsibilidade de ganhos e mais autonomia para quem depende da atividade como principal fonte de renda.
A ideia nasceu da experiência direta dos fundadores. Oséias trabalhava como operador de máquinas em plantações de eucalipto, enquanto Carlos Henrique de Araújo era metalúrgico. Ambos começaram a dirigir para complementar a renda e logo perceberam as limitações do modelo tradicional. A decisão de empreender veio em Nova Mutum, no Mato Grosso, com poucos recursos e uma operação enxuta.
O crescimento do Rota77 foi orgânico, impulsionado por indicações e parcerias locais. A primeira expansão ocorreu em 2020, quando Carlos levou o aplicativo para São Borja, no Rio Grande do Sul. Hoje, cada cidade conta com um gestor local responsável por desenvolver a operação, atrair motoristas e adaptar o serviço às características da região. “No interior, as pessoas querem saber quem está por trás. Querem proximidade e confiança”, afirma Oséias.
O resultado é um crescimento consistente. Em 2025, a plataforma realizou mais de 15 milhões de corridas, um aumento de 61,48% em relação ao ano anterior. Diferentemente de modelos de franquia tradicionais, a empresa não foca na venda de unidades, mas no fortalecimento das operações locais. O investimento inicial para adquirir uma licença é a partir de R$ 900. O investimento direcionado a marketing e atração de usuários é responsabilidade do licenciado, que não é obrigado a investir um valor mínimo. Os ganhos dos licenciados vêm das mensalidades pagas pelos motoristas.
O avanço do Rota77 reflete uma tendência mais ampla no setor, com soluções regionais buscando competir com grandes plataformas por meio de maior proximidade com motoristas e personalização do serviço. Para os fundadores, o desafio não é apenas crescer, mas consolidar uma operação sustentável e confiável. “O mercado é competitivo, mas há oportunidade para quem faz o básico bem feito: ouvir o motorista, entender a cidade e executar melhor”, afirma Oséias.
Para Vinícius Guahy, coordenador de conteúdo e comunidade da Machine, sistema utilizado pelo negócio para gerenciar o aplicativo, a empresa é um caso clássico de que é possível um app brasileiro ganhar espaço em um mercado tão competitivo. “Esse é um dos aplicativos regionais que mais cresceu em 2025, mostrando que ainda há um mercado enorme para explorar em cidades de pequeno e médio porte”, diz.
