Carros elétricos aceleram nova corrida por infraestrutura energética no Brasil
O avanço dos veículos elétricos no Brasil começa a provocar uma transformação silenciosa, mas profunda, no setor energético nacional. O crescimento acelerado da frota eletrificada já impulsiona uma nova demanda por infraestrutura de recarga, aumento do consumo de energia e expansão de soluções ligadas à geração distribuída e eletromobilidade.
Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) mostram que o mercado de veículos eletrificados registrou crescimento de 26% em 2025, consolidando uma curva de expansão muito acima da observada no setor automotivo tradicional. Ao mesmo tempo, a rede de recarga pública e semipública ultrapassou a marca de 21 mil pontos no país, com forte avanço dos carregadores rápidos.
Apesar da expansão, especialistas do setor avaliam que a infraestrutura ainda cresce em ritmo inferior ao da demanda.
Para o diretor da Coesa Energia, Luís Fernando Roquette, o país começa a enfrentar um novo desafio energético associado diretamente à eletrificação da mobilidade.
“Hoje, o carro elétrico não representa apenas uma mudança no setor automotivo. Ele cria uma nova demanda permanente por energia. Isso impacta consumo, infraestrutura, logística e o próprio planejamento energético do país”, afirma.
Segundo Roquette, a principal preocupação do setor já não está mais na adesão aos veículos elétricos, mas na capacidade estrutural de suportar o crescimento da frota.
“O gargalo começa a deixar de ser o carro e passa a ser a infraestrutura de carregamento. O Brasil está avançando rapidamente na venda de veículos elétricos, mas ainda está muito aquém da estrutura necessária para atender essa expansão”, diz.
A avaliação ganha força principalmente diante da rápida entrada de montadoras chinesas no mercado brasileiro e do crescimento da adoção de veículos elétricos por motoristas de aplicativo. Para especialistas, esse grupo tende a acelerar ainda mais a demanda por carregamento rápido e energia de menor custo.
“Quem roda o dia inteiro não consegue depender apenas de carregamento residencial. O motorista de aplicativo precisa de carregamento rápido e de custo operacional mais baixo. Isso tem provocado uma procura crescente por eletropostos e também por soluções de energia mais barata”, afirma Roquette.
O movimento já começa a criar novas oportunidades econômicas no setor energético. Empresas ligadas à infraestrutura elétrica observam aumento na demanda por instalação de carregadores rápidos, especialmente em rodovias, corredores logísticos e grandes centros urbanos.
Segundo levantamento da ABVE, o número de carregadores rápidos cresceu mais de 160% em apenas um ano no Brasil. Ainda assim, o país permanece distante da proporção considerada ideal entre veículos elétricos e pontos de recarga.
Na avaliação de Roquette, o avanço da eletromobilidade também deve pressionar o debate sobre modernização da infraestrutura energética nacional.
“Hoje, a expansão dos veículos elétricos exige uma discussão mais ampla sobre distribuição, capacidade de carga e planejamento energético. Não é apenas uma pauta automotiva ou ambiental. É uma pauta econômica e estrutural”, afirma.
O executivo avalia ainda que o crescimento da eletromobilidade tende a impulsionar outros segmentos ligados ao setor elétrico, como geração distribuída, energia solar e soluções de eficiência energética.
“Muita gente que migra para o carro elétrico passa automaticamente a buscar alternativas para reduzir o custo da energia. Isso gera uma cadeia nova de consumo energético no país”, afirma.
Além do crescimento da frota elétrica, o setor acompanha com atenção a expansão dos chamados eletropostos, que começam a se consolidar como um novo nicho de negócios no Brasil. A percepção do mercado é de que os pontos de recarga rápida devem ganhar importância semelhante à dos postos de combustíveis tradicionais ao longo dos próximos anos.
Para Roquette, o cenário ainda está em construção, mas a tendência já se tornou irreversível.
“A eletromobilidade deixou de ser uma aposta futura. Ela já está transformando o setor energético brasileiro agora”, conclui.
